Câmeras e privacidade

Reconhecimento facial prendeu 4 pessoas na Expoacre 2026: entenda o sistema que já monitora Rio Branco

Entre quase 400 mil visitantes da Expoacre 2026, cinco câmeras com reconhecimento facial ajudaram a identificar quatro pessoas com mandado em aberto. A tecnologia da feira é uma fração de um programa municipal bem maior — e ainda há perguntas sem resposta sobre auditoria e viés racial.

Painel de telas da Central de Videomonitoramento de Rio Branco, mostrando câmeras de diversas ruas da cidade e um mapa com pontos de câmera
A Central de Videomonitoramento de Rio Branco, inaugurada em março de 2026, monitora a cidade com 450 câmeras — cinco delas foram deslocadas para reforçar a segurança da Expoacre. Foto: Wilkes Silva / Secom Rio Branco · Uso de imprensa (material oficial da Prefeitura de Rio Branco)

O que aconteceu na Expoacre 2026

A Expoacre 2026 ocupou o Parque de Exposições Wildy Viana, em Rio Branco, de 1º a 9 de agosto, e reuniu cerca de 391 mil visitantes ao longo das nove noites, segundo estimativa da segurança pública do Acre. Para o esquema de segurança, a Polícia Militar do Acre (PMAC) manteve um efetivo médio de 160 policiais por dia dentro do parque — reforçado para 130 policiais só na abertura, durante a tradicional Cavalgada de 1º de agosto, que terminou sem ocorrências graves.

A infraestrutura de videomonitoramento do parque somava 41 câmeras, das quais cinco equipadas com tecnologia de reconhecimento facial, voltadas a identificar pessoas com mandado de prisão em aberto ou desaparecidos. Ao final dos nove dias, o balanço da segurança pública registrou quatro prisões efetuadas com apoio direto do reconhecimento facial.

O caso mais lembrado aconteceu na noite de sexta-feira, 7 de agosto: um foragido da Justiça de Porto Velho (RO) identificado como Mateus foi reconhecido pelo sistema em meio ao público, durante um casamento coletivo do Projeto Cidadão realizado dentro da própria feira. Ele tinha mandado de prisão em aberto por tráfico de drogas e foi detido por uma equipe da Polícia Civil logo depois de oficializar a união. Já na primeira noite do evento, 1º de agosto, o reconhecimento facial havia flagrado outro homem, este com mandado por dívida de pensão alimentícia — caso citado pelo Major William como reflexo do modelo de policiamento setorizado adotado no parque.

Mesa de trabalho com três monitores mostrando câmeras de segurança ao vivo e um painel chamado Monitoramento das Câmeras, com lista de alertas
Estação de um operador da Central de Videomonitoramento de Rio Branco, com o painel de alertas de câmeras. Foto: Wilkes Silva / Secom Rio Branco · Uso de imprensa (material oficial da Prefeitura de Rio Branco)

Como funciona a verificação: a câmera não prende sozinha

O diretor de Operações da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), Athaualpa Ribeira, descreveu o fluxo de trabalho por trás de cada alerta: "a pessoa tem o seu reconhecimento, essa informação é validada por alguns profissionais que vão buscar no banco de dados, confirmam se realmente aquela pessoa que a câmera apontou é a que está no documento". Só depois dessa checagem humana contra os bancos de dados de segurança é que uma equipe policial é acionada para abordar alguém.

Ribeira também enquadrou o resultado da Expoacre dentro de uma lógica preventiva, não apenas repressiva: "nós tivemos mais ações preventivas do que repressivas. Nós prevenimos mais do que precisamos prender pessoas". Na prática, isso significa que a maior parte do trabalho das câmeras — e do policiamento setorizado que as acompanha em campo — não aparece em números de prisão, e as fontes consultadas não detalham quantos alertas foram gerados na Expoacre além dos quatro que resultaram em prisão.

Parede de telas com o logotipo CIV Prefeitura de Rio Branco - Acre à esquerda e imagens de câmeras de trânsito ao vivo à direita, com operadores trabalhando ao fundo
A sala de controle integrado da Prefeitura de Rio Branco, com imagens de câmeras de diferentes pontos da cidade em tempo real. Foto: Wilkes Silva / Secom Rio Branco · Uso de imprensa (material oficial da Prefeitura de Rio Branco)

A Expoacre é só uma fração do programa "Rio Branco Mais Segura"

As cinco câmeras faciais da feira são um destacamento pontual de uma estrutura bem maior. Em 23 de março de 2026, a Prefeitura de Rio Branco inaugurou a Sala de Videomonitoramento do programa "Rio Branco Mais Segura", com 450 câmeras de alta tecnologia espalhadas por vias públicas, unidades de saúde, escolas, praças e parques da capital — investimento de R$ 6 milhões em recursos próprios do município, segundo a prefeitura. O sistema faz identificação facial e veicular em tempo real, opera integrado às forças policiais e mantém um banco de dados de pessoas desaparecidas conectado ao sistema nacional. Nas escolas municipais, o mesmo reconhecimento facial também registra a entrada dos alunos, automatizando a chamada dos professores e avisando os pais em tempo real.

Oito dias depois da inauguração, em 31 de março de 2026, a prefeitura assinou com a Polícia Federal o que as duas partes chamaram de primeiro acordo de cooperação técnica do Brasil entre a PF e uma administração municipal para uso de reconhecimento facial. "É uma cooperação sem precedentes da Polícia Federal com a prefeitura, é o primeiro que a gente faz com esse objetivo", disse o superintendente da PF no Acre, Carlos Rocha Sanches, na assinatura. O então prefeito Tião Bocalom classificou o acordo da mesma forma. Nenhuma das autoridades detalhou publicamente que dados são compartilhados entre os dois órgãos, citando tratar-se de protocolo de segurança pública.

Fora do período da Expoacre, o programa municipal também divulga resultados: em junho de 2026, o sistema gerou 36 alertas, dos quais 25 viraram prisão efetiva — três por homicídio ou tentativa, três por crimes sexuais, um por descumprimento de medida protetiva, um por violência doméstica, um por mandado de internação e um por furto qualificado. As fontes consultadas não explicam o que aconteceu com os outros 11 alertas do mês: se foram erros de leitura do algoritmo, pessoas abordadas indevidamente ou suspeitos que escaparam antes da intervenção policial, nenhum documento público esclarece.

Prefeito de Rio Branco descerra uma placa de inauguração ao lado de um coronel da Polícia Militar, com outras autoridades observando
Cerimônia de inauguração da Sala de Videomonitoramento do programa Rio Branco Mais Segura, em 23 de março de 2026. Foto: Secom Rio Branco · Uso de imprensa (material oficial da Prefeitura de Rio Branco)

O que a LGPD diz sobre isso — e o que ainda não tem resposta

A Lei Geral de Proteção de Dados tem uma hipótese de dispensa para atividades de segurança pública e defesa nacional. Segundo a diretora executiva da AqualtuneLab, Ana Carolina Lima, essa brecha deixa o uso de reconhecimento facial por órgãos de segurança fora do regime de fiscalização mais rígido que a mesma lei aplica a empresas e condomínios que usam a tecnologia para controle de acesso — um vácuo regulatório sobre o qual, segundo ela, ainda faltam transparência e controles públicos adequados.

O debate sobre reconhecimento facial na segurança pública brasileira já é antigo e tem dado concreto por trás: um estudo da Rede de Observatórios de Segurança, com dados de 2019 levantados em quatro estados (Bahia, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Paraíba), encontrou que, das 151 pessoas presas com apoio de reconhecimento facial, 90% eram negras. O Panóptico, projeto do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) coordenado por Pablo Nunes que monitora esse tipo de tecnologia no país desde 2018, cita ainda estudos internacionais como o Gender Shades (2018) sobre a maior taxa de erro de algoritmos de reconhecimento facial com pessoas negras — e lembra que cidades como São Francisco e Boston, nos Estados Unidos, chegaram a banir o uso da tecnologia por forças policiais depois de casos de prisão injusta ligados a falsos positivos.

É importante separar isso do que existe de fato sobre o sistema do Acre: os dados de viés racial citados acima são nacionais e internacionais, não uma auditoria do sistema usado em Rio Branco. E é justamente aí que aparecem as lacunas: nenhuma fonte consultada para esta reportagem menciona auditoria independente de acurácia ou de viés racial feita sobre o sistema específico da Sejusp, da PMAC ou da Prefeitura de Rio Branco. Não há dado público sobre falsos positivos na Expoacre, nem explicação para os 11 alertas do balanço de junho que não terminaram em prisão. E a empresa que fornece o software e as câmeras não é identificada em nenhuma das fontes oficiais ou jornalísticas disponíveis — apenas um técnico da PMAC, Guilherme Azevedo, é citado publicamente como responsável por explicar o funcionamento biométrico do sistema.

Eficiência declarada, fiscalização que ainda não apareceu

As quatro prisões da Expoacre são o resultado concreto que autoridades do Acre apontam como prova de que o reconhecimento facial funciona. É um número real, com nomes e mandados verificáveis por trás. Mas ele é a ponta visível de uma estrutura que cresceu rápido — de uma feira agropecuária a um programa municipal de 450 câmeras com acordo inédito com a Polícia Federal — sem que, até esta apuração, tenha aparecido do outro lado uma auditoria pública, um número de falsos positivos ou o nome da empresa por trás do software. É exatamente esse tipo de lacuna que projetos nacionais de monitoramento, como o Panóptico do CESeC, cobram de todo estado que adota a tecnologia. Rio Branco entrou nesse mapa; por enquanto, sem resposta própria às mesmas perguntas.