Reconhecimento facial passa de 6,1 mil prisões na Bahia — e o único estudo sobre quem é preso tem sete anos
A Secretaria da Segurança Pública da Bahia apresentou os números em reunião no Centro de Operações e Inteligência, em 17 de agosto: mais de 5 mil câmeras cruzando imagens com o banco de mandados do CNJ, ativas desde 2018. É o sistema de reconhecimento facial mais antigo em operação contínua no Brasil — e o único dado público sobre quem essas câmeras prendem segue sendo um levantamento de 2019, nunca atualizado pelo próprio estado.

O que foi anunciado, e onde
O balanço foi apresentado em 17 de agosto de 2026, numa reunião no Centro de Operações e Inteligência (COI), estrutura da SSP-BA responsável por receber os alertas do sistema e fazer o georreferenciamento necessário para acionar as equipes mais próximas da ocorrência.
Segundo a secretaria, a tecnologia de reconhecimento facial já contribuiu para mais de 6,1 mil prisões desde que entrou em operação, em dezembro de 2018. O sistema é usado para localizar pessoas com mandado de prisão em aberto, incluindo suspeitas de homicídio, tráfico de drogas, roubo e furto.
Não foi divulgado o período exato coberto pelo número — se é o total acumulado desde 2018 ou um corte mais recente — nem o número de câmeras usado especificamente para reconhecimento facial dentro do total de mais de 5 mil citado.
Como o sistema funciona, do rosto ao alerta
As mais de 5 mil câmeras estão distribuídas entre Salvador, a Região Metropolitana de Salvador (RMS) e municípios do interior, integradas aos CICOMs — as centrais regionais que recebem o fluxo de imagens antes de repassá-lo ao COI.
O software cruza os rostos captados com um banco de dados próprio da SSP-BA, alimentado por informações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre mandados de prisão em aberto. Quando o sistema reconhece uma correspondência, o COI recebe o alerta e faz a geolocalização para acionar os agentes mais próximos.
A secretaria informa que, quando o índice de efetividade do reconhecimento passa de 91%, o suspeito é conduzido por policiais a uma delegacia e, posteriormente, apresentado à Justiça. O que a SSP-BA não detalha publicamente é o que acontece abaixo desse limiar — se o alerta é descartado, revisado manualmente por um agente antes de qualquer abordagem, ou tratado de outra forma.
De 80 prisões em 2018 a 6,1 mil hoje: a mais antiga em operação no país
A Bahia foi pioneira no uso dessa tecnologia em segurança pública no Brasil. O sistema alcançou a marca de 80 foragidos presos ainda em novembro de 2019, cerca de um ano após a implantação.
Os números foram crescendo em divulgações sucessivas da própria SSP-BA: mais de 200 prisões em 2022, a marca de 700 foragidos em fevereiro de 2023 — destaque, na época, de uma reportagem do Fantástico, da Rede Globo —, e 500 capturas somente no ano de 2026 até março, segundo nota publicada pela Secretaria de Comunicação Social do governo baiano. O total de 6,1 mil informado em agosto consolida quase oito anos de operação contínua.
É esse histórico que torna a Bahia uma referência dentro e fora do país para quem estuda reconhecimento facial aplicado à segurança pública — para o bem e para o mal. O estado testou o modelo por mais tempo do que qualquer outro no Brasil, mas também é o que concentra o maior volume de prisões feitas dessa forma, o que aumenta o peso de qualquer viés que o sistema carregue.

O que os 6,1 mil não mostram: um estudo de 2019 que nunca foi atualizado
A SSP-BA divulga com regularidade o total acumulado de prisões. O que não divulga, em nenhuma das notas verificadas para esta reportagem, é o perfil de quem é preso: idade, cor, sexo, ou quantos desses alertas resultaram em prisão de pessoa diferente da procurada.
O único levantamento público sobre esse perfil é de 2019. No capítulo "Novas ferramentas, velhas práticas: reconhecimento facial e policiamento no Brasil", do pesquisador Pablo Nunes, publicado no relatório "Retratos da Violência" do CESeC (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania), a Rede de Observatórios da Segurança monitorou prisões e abordagens por reconhecimento facial em cinco estados — Bahia, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Paraíba e Ceará — entre março e outubro daquele ano. Foram identificadas 151 prisões no período, das quais a Bahia concentrava 51,7% — mais que todos os outros quatro estados somados. Do total de casos com informação disponível sobre a pessoa presa, 90% eram homens negros.
Sete anos separam esse levantamento do balanço de 6,1 mil prisões anunciado em agosto. Nesse intervalo, nem a SSP-BA nem a Rede de Observatórios da Segurança publicaram uma atualização equivalente para o volume atual de prisões — o que significa que não há hoje um dado público e recente para confirmar ou refutar se a concentração observada em 2019 se mantém, aumentou ou diminuiu.
Essa é uma lacuna de informação, não uma acusação: os 6,1 mil casos atuais podem ter um perfil diferente do levantamento de 2019, mas isso não pode ser verificado com o que está publicado. A ausência de dado demográfico atualizado sobre um sistema que já passou por milhares de prisões é, em si, uma informação relevante para quem acompanha o tema.

O que isso significa para quem instala câmera
O sistema da Bahia é exatamente o tipo de uso que está no centro da discussão sobre o Marco Legal da Inteligência Artificial: identificação biométrica remota, em tempo real, em espaço acessível ao público. O texto do PL 2338/2023, aprovado pelo Senado e hoje parado na Câmara, classifica esse uso como risco excessivo — proibido, salvo exceções ligadas a lei federal específica e autorização judicial para persecução penal.
Enquanto o marco não vira lei, o que vale é a LGPD. Dado biométrico é dado pessoal sensível pela Lei 13.709/2018, o que já exige finalidade declarada, base legal específica e retenção limitada ao necessário — regras que se aplicam a qualquer operador desse tipo de sistema, público ou privado.
Para quem instala CFTV em condomínio, comércio ou residência, a distinção prática continua a mesma de sempre: um leitor facial de portaria identifica pessoas previamente cadastradas, que sabem do cadastro, num ponto de acesso controlado. Isso é controle de acesso, não vigilância biométrica contínua de quem passa na calçada. O sistema da Bahia é o outro extremo — rede pública, tempo real, sem que o indivíduo saiba que está sendo verificado —, e é justamente por operar nesse extremo, e há mais tempo que qualquer outro estado, que a falta de dado atualizado sobre seus próprios resultados pesa mais.
O que observar daqui para frente
Dois pontos concentram o que ainda pode esclarecer esse balanço. O primeiro é se a SSP-BA vai publicar, ou for obrigada a publicar, um perfil demográfico do total de 6,1 mil prisões — hoje inexistente. O segundo é se a Rede de Observatórios da Segurança ou outra iniciativa independente vai atualizar o levantamento de 2019 com dados da escala atual do sistema.
Até que um dos dois aconteça, o que existe publicamente são dois números que não conversam entre si: o total oficial de prisões, atualizado pela SSP-BA a cada marco alcançado, e um retrato de quem é preso que parou no tempo em outubro de 2019.