Segurança pública

Cão-robô e novo drone da Guarda de Americana são confirmados 8 meses após o anúncio

Em dezembro de 2025, a Guarda Municipal de Americana (GAMA) anunciou a compra de um cão-robô — mas, oito meses depois, não havia contrato, entrega ou apresentação pública confirmada. Em 20 de agosto, a corporação apresentou o equipamento ao prefeito Chico Sardelli, junto com um novo drone térmico DJI Matrice 4TD financiado por emenda parlamentar federal.

Vista aérea de bairro residencial de Americana, SP, ao entardecer, com prédios ao fundo
Americana, SP — imagem ilustrativa, sem relação com nenhum ponto específico de patrulhamento citado nesta reportagem. Foto: Sintegrity / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

A lacuna de oito meses foi fechada

Em dezembro de 2025, a GAMA publicou um aviso de cotação para adquirir, por dispensa de licitação, um cão-robô — um quadrúpede biônico com inteligência artificial e sensores 4D LiDAR — com investimento estimado em cerca de R$ 45 mil. Uma reportagem publicada por este site em 22 de agosto de 2026 revisou os 15 editais publicados pela corporação entre janeiro e agosto daquele ano e não encontrou contrato, homologação, entrega ou apresentação pública do equipamento em nenhum deles.

Essa lacuna foi fechada em 20 de agosto de 2026: segundo o Americana Post e o Jornal Americanense, a GAMA apresentou o cão-robô — já adquirido, pelo valor final de R$ 37,9 mil — ao prefeito Chico Sardelli e ao vice-prefeito Odir Demarchi. O valor final ficou abaixo da estimativa de dezembro, financiado com recursos próprios da corporação.

O que o cão-robô faz, segundo a GAMA

As especificações técnicas divulgadas em agosto repetem as de dezembro: um robô quadrúpede biônico autônomo, com inteligência artificial para seguir pessoas e evitar obstáculos, sensores e câmeras 4D LiDAR com visão 360° e detecção de profundidade, e conectividade por Wi-Fi, Bluetooth e 4G, controlável por aplicativo, controle remoto ou comando de voz. Nenhuma das fontes consultadas — nem o anúncio oficial de dezembro, nem as matérias de agosto — identifica a marca ou o fabricante do equipamento.

Segundo o comandante da GAMA, Marco Aurélio da Silva, o equipamento vai se integrar à Muralha Digital, o sistema de videomonitoramento por câmeras já em operação na cidade, ampliando a capacidade de monitoramento terrestre. Os usos previstos incluem identificar pessoas procuradas pela Justiça e veículos envolvidos em crimes, apoiar guardas municipais em locais de difícil acesso e ações educativas de aproximação de crianças à tecnologia de segurança.

Mulher e criança sorrindo ao observar um robô quadrúpede modelo Unitree em um parque
Um robô quadrúpede Unitree — a classe de equipamento mais próxima da especificação divulgada pela GAMA — interage com uma família num parque na Romênia. Não é o equipamento de Americana, cuja marca não foi divulgada; a foto ilustra o uso educativo mencionado pela corporação. Foto: U.S. Army (Sgt. Amber Edwards) / Wikimedia Commons · Domínio público

O item que não estava no anúncio de dezembro: um drone térmico

Diferente do cão-robô, o drone apresentado em 20 de agosto é uma novidade — não constava em nenhum anúncio anterior da GAMA consultado para esta reportagem. Trata-se de um DJI Matrice 4TD, equipamento de alto desempenho com visão térmica e óptica de precisão, indicado para missões críticas como segurança, busca e salvamento, além de inspeção de redes elétricas e industriais.

O investimento de R$ 60 mil veio de uma emenda parlamentar do deputado federal Kim Kataguiri — uma fonte de financiamento distinta da usada no cão-robô, que saiu de recursos próprios da corporação. Segundo as fontes consultadas, o drone vai patrulhar prédios públicos, locais de grande circulação em horários de pico e grandes eventos municipais, com imagens enviadas em tempo real ao Centro de Segurança e Inteligência (CSI), às viaturas de patrulhamento e a bases móveis.

Drone profissional modelo DJI Matrice em voo noturno, com câmera térmica visível, sobre telhado de casa
Um DJI Matrice 300RTK, da mesma linha profissional do modelo adquirido pela GAMA, em operação noturna com câmera térmica — imagem ilustrativa, de um corpo de bombeiros na Áustria. Foto: Iswoar / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

O que a visão térmica muda na prática

A câmera térmica é o diferencial técnico mais citado nas duas matérias de agosto sobre o drone. Diferente de uma câmera comum, que depende de luz visível, um sensor térmico capta a radiação infravermelha emitida por qualquer corpo com temperatura acima do zero absoluto — o que permite identificar uma pessoa escondida atrás de vegetação, num telhado escuro ou à noite, sem depender de iluminação da cena.

É a mesma tecnologia usada por corpos de bombeiros para localizar pontos de calor num incêndio ou pessoas em ambientes com fumaça, e por equipes de busca e salvamento para localizar alguém perdido em mata fechada. Nenhuma das fontes de agosto detalha a resolução do sensor térmico do equipamento de Americana nem o alcance efetivo de detecção — informações que normalmente constam da ficha técnica do fabricante, mas não foram reproduzidas nas matérias consultadas.

Câmera térmica portátil de mão, modelo FLIR, sobre uma bancada
Câmera térmica portátil — imagem ilustrativa de um equipamento de mão, não do sensor embarcado no drone da GAMA. Foto: Asurnipal / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Uma observação sobre as citações oficiais

Vale registrar um detalhe editorial: a citação atribuída ao prefeito Chico Sardelli nas matérias de agosto de 2026 é idêntica, palavra por palavra, à citação divulgada no anúncio oficial de dezembro de 2025 — "nossa gestão sempre defendeu uma guarda municipal com mais recursos e com equipe bem treinada". A fala do comandante Marco Aurélio da Silva sobre o cão-robô se integrar à Muralha Digital também é quase idêntica entre os dois momentos, com pequenas variações de estilo.

Isso não muda o fato central — a aquisição foi, de fato, confirmada em agosto, com valor final e uma apresentação pública documentada, o que não existia até 22 de agosto —, mas indica que parte do material usado pela imprensa local em agosto reaproveitou declarações originalmente feitas em dezembro, e não necessariamente falas novas colhidas no evento de apresentação.

O que ainda não foi esclarecido

Mesmo com a confirmação da aquisição, alguns pontos práticos não aparecem nas fontes consultadas: a marca e o fabricante comercial do cão-robô não são revelados em nenhum momento — nem em dezembro, nem em agosto. Também não há cronograma público de quando o equipamento começa a operar rotineiramente nas ruas, nem detalhes sobre o treinamento dos guardas que vão operá-lo. A empresa fornecedora vencedora do processo de dispensa de licitação de dezembro de 2025 também não foi identificada nas fontes de agosto.

Conclusão

O caso do cão-robô de Americana ilustra algo comum em cobertura de tecnologia aplicada à segurança pública: o intervalo entre o anúncio de uma compra e a confirmação de que ela de fato aconteceu pode levar meses, e só uma checagem direta nos registros públicos — e não a repetição do anúncio original — permite dizer com segurança em que pé o processo está. Com a apresentação de 20 de agosto, esse processo específico chegou a um desfecho verificável.