Anatel restringe Wi-Fi à faixa inferior dos 6 GHz a partir de 2027; entenda o que muda
O Conselho Diretor da Anatel decidiu reservar a metade superior da faixa de 6 GHz para sistemas móveis, com base em testes que mediram perdas de até 100% na conexão Wi-Fi quando as duas tecnologias dividem o mesmo canal. Roteadores já vendidos não são recolhidos, mas o setor de Wi-Fi vê a mudança como um baque num debate que já dura mais de um ano.

O que muda, exatamente
A faixa de 6 GHz tem 1.200 MHz de largura, de 5.925 MHz a 7.125 MHz. Até a decisão de agosto, o Brasil seguia um modelo em que essa faixa inteira estava disponível para uso não licenciado — o padrão que permite ligar um roteador em casa sem pedir autorização prévia à Anatel, é só a faixa usada por Wi-Fi 6E e Wi-Fi 7. A partir de agora, esse uso livre fica restrito à metade inferior, de 5.925 MHz a 6.425 MHz.
A metade superior, de 6.425 MHz a 7.125 MHz, deixa de estar disponível para novos equipamentos de Wi-Fi e passa a ser destinada a sistemas móveis IMT — a mesma categoria técnica que hoje sustenta o 4G e o 5G, e que deve abrigar redes 6G no futuro. Produtos de "Sistema de Acesso sem Fio de Banda Larga para Redes Locais", a categoria técnica que cobre os roteadores domésticos e corporativos de Wi-Fi, não são mais certificados pela Anatel para operar na parte de cima do espectro.
A decisão também proíbe pontos de acesso e equipamentos subordinados de Wi-Fi em plataformas de petróleo, veículos, trens e embarcações, e em aeronaves — exceto dentro de aeronaves de grande porte acima de 3.048 metros de altitude, segundo o teor do Ato nº 10.400 relatado pelo TELETIME.

Por que a Anatel decidiu isso: os testes de interferência
A Anatel baseou a divisão da faixa em testes de laboratório, testes de campo e simulações sobre a coexistência entre equipamentos de Wi-Fi e sistemas móveis IMT operando na mesma faixa. Segundo o texto do ato, relatado pelo Canaltech, os estudos identificaram degradação relevante de desempenho quando as duas tecnologias dividiam o mesmo canal ou frequências parcialmente sobrepostas.
Em um dos cenários testados, a perda de desempenho do Wi-Fi passou de 90%, enquanto o sistema móvel na mesma área sofreu degradação de 25%. Em outro cenário, a perda chegou a 100% para o Wi-Fi contra 30% para o sistema móvel — ou seja, em determinadas condições de compartilhamento, a rede Wi-Fi simplesmente parava de funcionar, enquanto a rede móvel seguia operando com perda parcial. A operação em canais adjacentes, sem sobreposição direta de frequência, reduziu significativamente os níveis de interferência medidos.
A agência deixou a porta aberta para rever a divisão da faixa se "evoluções técnicas e regulatórias" permitirem, no futuro, uma coexistência harmônica entre as duas tecnologias na parte superior do espectro. Como parte dessa possibilidade, a Anatel também determinou que suas superintendências técnicas desenvolvam uma proposta de ambiente regulatório experimental — um sandbox — para testes controlados dessa coexistência.
O que muda para quem já tem roteador Wi-Fi 6E ou Wi-Fi 7
Para quem já comprou ou instalou um roteador Wi-Fi 6E ou Wi-Fi 7 no Brasil, a mudança não é imediata. Segundo o Canaltech, os produtos já vendidos e certificados "não serão simplesmente retirados do mercado" — a adequação às novas regras acontece durante a manutenção periódica da certificação de cada modelo, um processo que os fabricantes já seguem rotineiramente junto à Anatel, e que passa a incorporar a restrição à faixa inferior a partir de 1º de março de 2027.
Na prática, o equipamento que já está na parede de casa continua funcionando: o Wi-Fi 6E e o Wi-Fi 7 usam três faixas — 2,4 GHz, 5 GHz e 6 GHz — e o que muda é apenas o intervalo disponível dentro da faixa de 6 GHz, não a tecnologia como um todo. Nenhuma fonte consultada detalha se, na prática, os roteadores mais recentes precisarão de atualização de firmware para deixar de usar os canais superiores, ou se o ajuste fica inteiramente a cargo da homologação do fabricante — esse é um ponto que a cobertura disponível até agora não esclarece.
O consumidor final não precisa tomar nenhuma ação imediata. A obrigatoriedade da nova regra é sobre a certificação de produtos pela Anatel, não sobre o uso de equipamentos já instalados.

Uma disputa regulatória que vem de longe
A divisão da faixa de 6 GHz entre Wi-Fi e telefonia móvel não nasceu em agosto de 2026 — é um debate que a Anatel conduz publicamente desde pelo menos 2024, quando abriu consulta pública sobre o uso da metade inferior da faixa para Wi-Fi 6E. Em dezembro daquele ano, uma decisão anterior do Conselho Diretor sobre a destinação de parte da faixa para leilão gerou contestação formal de associações do setor de provedores regionais de internet, entre elas a Abrint, que alegaram falhas no processo regulatório — episódio distinto da decisão de agosto de 2026 aqui descrita, mas que mostra que a disputa entre os dois usos do espectro já se arrasta há mais de um ano.
Em julho de 2026, a Anatel promoveu, em parceria com o Ceadi (Centro de Estudos Avançados em Comunicações Digitais e Inovações Tecnológicas), um evento reunindo representantes da agência, do setor de telecomunicações, da indústria e da academia especificamente para debater o "equilíbrio regulatório entre inovação, inclusão e harmonização internacional" na faixa de 6 GHz — um sinal de que a decisão de agosto era esperada pelo setor, ainda que sem data certa até a votação do Conselho Diretor.
O tamanho do interesse comercial em jogo também ajuda a explicar a disputa: um estudo apresentado no MWC 2026, em parceria entre a Huawei e o instituto IPE Digital, estimou que a adoção do Wi-Fi 7 no Brasil pode atrair mais de US$ 10 bilhões em investimentos nos próximos três anos. Do lado da telefonia móvel, a faixa superior de 6 GHz é vista pela indústria como um caminho natural de expansão de capacidade para redes 5G avançadas e para o eventual 6G — o mesmo espectro que a Anatel acaba de reservar para esse uso.

O que ainda não está claro
A Anatel documentou a justificativa técnica da divisão e definiu um prazo de adequação de mais de seis meses até a obrigatoriedade, em março de 2027. O que nenhuma fonte consultada para esta reportagem esclarece é como associações de fabricantes de equipamentos de Wi-Fi ou entidades de defesa do consumidor reagiram especificamente a esta decisão de agosto de 2026 — as contestações documentadas do setor, incluindo as da Abrint, referem-se a uma decisão anterior da agência, de dezembro de 2024, sobre o mesmo tema geral. Também não há, nas fontes disponíveis, um número oficial de quantos roteadores Wi-Fi 6E e Wi-Fi 7 já estão em uso no Brasil e seriam afetados pela transição de certificação a partir de 2027.
Para quem instala rede Wi-Fi hoje, a recomendação prática que decorre dos próprios fatos apurados é simples: nenhum equipamento precisa ser trocado agora, e a Anatel ainda vai regulamentar, na prática, como cada fabricante fará a adequação de seus modelos já certificados.